O ano anterior fora péssimo. Metade se passara em lamentações por situações por ele exageradas; a outra parte se perdera numa tentativa desastrosa de relacionamento que só servira para piorar seu estado de espírito. Nesse período, aproximou-se de seu esporte favorito e apegou-se a ele como forma de superar os insucessos pessoais.
No início do novo ano, seu PC quebrou. Aquilo seria encarado como presságio de outra época ruim, mas passar 54 dias sem o aparelho foi fundamental para que o ano se iniciasse de fato. Tudo novo, novas perspectivas, um novo campeonato, quase que nenhum vínculo com os anteriores 365 que ele queria esquecer.
Na volta à rotina, tudo melhorara, menos sua dependência da opinião de outras pessoas. Mas isso era contornável, administrável. Os dias eram agora até que legais, agradáveis. As caminhas, outrora solitárias, eram agora acompanhadas por seus novos amigos.
Numa dessas caminhadas, voltando da lanchonete, ele a viu pela primeira vez. Começava, então, a mais fantástica história que ele poderia imaginar. “Como ela é bonita”, foi a primeira coisa que passou por sua mente. Tinha tudo para ser só mais uma impressão, mas não foi. Ela não foi esquecida depois de três minutos... foi lembrada a cada nova oportunidade – e eram muitas.
Ele não sabia seu nome, qual era seu grupo, como ela era... mas a cada vez que a via, tinha vontade de abraçá-la, conhecê-la, descobrir o que a fazia se sentir bem – acho que, desde então, ele gostava dela. “Como chegar a ela?”, era a grande questão.
Depois das experiências passadas ele estava traumatizado; passara tanto tempo tentando ser alguém para estar com uma pessoa que mal lembrava como era ser ele mesmo. A possibilidade de falar pessoalmente com ela estava, portanto, descartada. Restava, então, o domínio virtual, mas encontrá-la seria muito difícil. Tão difícil que ele só conseguiu meses depois, numa ocasião de muita sorte.
Mas, depois de encontrá-la, o que fazer? Com certa dose de certeza podemos afirmar que ele não era muito discreto enquanto a observava e isso podia atrapalhar uma apresentação virtual. Pediu, então, a opinião dos amigos, que disseram ser melhor não adicioná-la, para evitar perguntas do tipo “Quem é você?”. Ele sempre ouvia os amigos... mas não nesse dia. Depois do “add”, um dia de espera até a pergunta que todos sabíamos que seria feita.
Talvez ele não tenha sido muito sincero ao responder que apenas a havia visto algumas vezes, mas a historia original pode ser meio assustadora, dependendo de como se interpreta. Estava feito... ele se apresentara virtualmente, ela o aceitara. Num curso natural das coisas, a história terminaria aqui e hoje ela seria um dos 132 amigos dele numa rede social. Mas tudo nessa história foge ao normal, àquilo que ele faria com seu usual pessimismo.
Algumas semanas se passaram e poucas palavras foram trocadas. Talvez aquele fosse o limite... já estava além do que ele tinha pensado quando a viu
Às vezes a ajuda vem de onde menos se espera. Uma garota com quem conversara cinco vezes no máximo durante um curso o encontrou num ônibus. Depois de comentar rapidamente o assunto, sem detalhes nem nomes – aliás, seu velho erro: sempre deixar que todos soubessem o que sentia, menos a pessoa que mais deveria saber disso –, ela lhe disse algo muito parecido com “faça o que você quiser para se sentir bem”.
Por que não tentar se aproximar de alguém de quem ele realmente gostara, mesmo sem, ainda, a conhecer? Mas por que tentar, se envolver, sabendo como as coisas tradicionalmente terminavam?
