sexta-feira, 26 de março de 2010

Fairytale – Parte I: algo fora do comum

O ano anterior fora péssimo. Metade se passara em lamentações por situações por ele exageradas; a outra parte se perdera numa tentativa desastrosa de relacionamento que só servira para piorar seu estado de espírito. Nesse período, aproximou-se de seu esporte favorito e apegou-se a ele como forma de superar os insucessos pessoais.

No início do novo ano, seu PC quebrou. Aquilo seria encarado como presságio de outra época ruim, mas passar 54 dias sem o aparelho foi fundamental para que o ano se iniciasse de fato. Tudo novo, novas perspectivas, um novo campeonato, quase que nenhum vínculo com os anteriores 365 que ele queria esquecer.

Na volta à rotina, tudo melhorara, menos sua dependência da opinião de outras pessoas. Mas isso era contornável, administrável. Os dias eram agora até que legais, agradáveis. As caminhas, outrora solitárias, eram agora acompanhadas por seus novos amigos.

Numa dessas caminhadas, voltando da lanchonete, ele a viu pela primeira vez. Começava, então, a mais fantástica história que ele poderia imaginar. “Como ela é bonita”, foi a primeira coisa que passou por sua mente. Tinha tudo para ser só mais uma impressão, mas não foi. Ela não foi esquecida depois de três minutos... foi lembrada a cada nova oportunidade – e eram muitas.

Ele não sabia seu nome, qual era seu grupo, como ela era... mas a cada vez que a via, tinha vontade de abraçá-la, conhecê-la, descobrir o que a fazia se sentir bem – acho que, desde então, ele gostava dela. “Como chegar a ela?”, era a grande questão.

Depois das experiências passadas ele estava traumatizado; passara tanto tempo tentando ser alguém para estar com uma pessoa que mal lembrava como era ser ele mesmo. A possibilidade de falar pessoalmente com ela estava, portanto, descartada. Restava, então, o domínio virtual, mas encontrá-la seria muito difícil. Tão difícil que ele só conseguiu meses depois, numa ocasião de muita sorte.

Mas, depois de encontrá-la, o que fazer? Com certa dose de certeza podemos afirmar que ele não era muito discreto enquanto a observava e isso podia atrapalhar uma apresentação virtual. Pediu, então, a opinião dos amigos, que disseram ser melhor não adicioná-la, para evitar perguntas do tipo “Quem é você?”. Ele sempre ouvia os amigos... mas não nesse dia. Depois do “add”, um dia de espera até a pergunta que todos sabíamos que seria feita.

Talvez ele não tenha sido muito sincero ao responder que apenas a havia visto algumas vezes, mas a historia original pode ser meio assustadora, dependendo de como se interpreta. Estava feito... ele se apresentara virtualmente, ela o aceitara. Num curso natural das coisas, a história terminaria aqui e hoje ela seria um dos 132 amigos dele numa rede social. Mas tudo nessa história foge ao normal, àquilo que ele faria com seu usual pessimismo.

Algumas semanas se passaram e poucas palavras foram trocadas. Talvez aquele fosse o limite... já estava além do que ele tinha pensado quando a viu em fevereiro. Mas ela parecia ser tão fofa. Ele queria fazer algo a mais, mas não sabia o que... nem como.

Às vezes a ajuda vem de onde menos se espera. Uma garota com quem conversara cinco vezes no máximo durante um curso o encontrou num ônibus. Depois de comentar rapidamente o assunto, sem detalhes nem nomes – aliás, seu velho erro: sempre deixar que todos soubessem o que sentia, menos a pessoa que mais deveria saber disso –, ela lhe disse algo muito parecido com “faça o que você quiser para se sentir bem”.

Por que não tentar se aproximar de alguém de quem ele realmente gostara, mesmo sem, ainda, a conhecer? Mas por que tentar, se envolver, sabendo como as coisas tradicionalmente terminavam?

“Eles simplesmente pulam, pedindo a Deus para ter asas, porque senão eles caem...” – City of Angels.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Porque não leio mais a série Crepúsculo

Hoje, durante o percurso até a Etec, um de meus retweets dessa semana não saía de minha cabeça: #IHateTwilight. Isso pode parecer um bocado incoerente vindo de alguém que leu três e meio dos quatro livros da série de Stephenie Meyer – e provavelmente é. Mas há algum tempo atrás percebi que meu excesso de preocupação com coerência me impedia de fazer algo maravilhoso: mudar de idéia. Assim sendo, sim, afirmo não gostar da série Crepúsculo, mesmo após ler três livros e meio.

Bom, melhor esclarecer que o pensamento que motivou este texto não foi meu combate mental por coerência ou não, mas sim o que me fez parar de ler Eclipse. O que explico agora toma como base o comportamento de grandes heróis dos quadrinhos como Spider-Man, Batman e Superman.

Iniciei a semana no Twitter escrevendo que “quero ser picado por uma aranha radioativa”. Sempre me identifiquei com o estilo meio “banana” de Parker pré-aranha (especialmente quanto a relacionamentos), mas há outros personagens com problemas em suas vidas pessoais (Seth Cohen, de The O.C., é um exemplo perfeito na primeira temporada do seriado). Particularmente, o que me fez gostar tanto dessas séries e filmes – além, é claro, da ação envolvida em histórias muito mais complexas que a de Meyer – foi a superação do personagem desajustado socialmente.

Nesse sentido, apesar da saga de Peter e Mary Jane figurar entre as melhores, o grande prêmio vai para Seth e Summer na primeira temporada de The O.C.: do cara que nem era notado, que tinha sua existência desconhecida apesar de estudarem na mesma escola, ao posto de namorado de sua amada (Seth é meu ídolo! – ao menos, até o final da primeira temporada).

Bom, mas o que isso tem a ver com Crepúsculo? Obviamente, o amor não tem explicação – talvez em parte por isso seja tão belo –, mas, sendo um amor de ficção, certas coisas devem ser explicadas ou, no mínimo, motivadas. O amor cego de Bella por Edward era algo que incomodava desde o primeiro livro e ficou insuportável no final do segundo. A garota se apaixona pelo herói, pelo “símbolo de perfeição”, por aquilo que nós, simples mortais, nunca conseguiremos ser.

Onde está o conflito, a superação? Fãs da série podem argumentar que a grande superação de Edward é não mordê-la, mas isso não passa, em minha opinião, de uma simples regra de convivência. É como alguém que pratica seriamente certas religiões que pregam o ato sexual apenas após o casamento (e isso não torna esses indivíduos heróis, perante a ampla opinião pública). Claramente, não se mata a pessoa amada.

Como torcer por um personagem que nunca, na história narrada, sofreu as dores humanas de ver sua amada com outro, ou vê-la e não conseguir falar nada decente – novamente, para os fãs da série: não falar por necessidades alimentícias não se encaixa nessa dor; fome e dependência química são temas muito tristes, mas não são essas as dores as quais me refiro – e sair de cada ocasião em que a vê sentindo uma enorme angústia por sua insegurança.

Edward não é digno de ser chamado de herói. Salvo nos fracos conflitos criados por Meyer, a situação sempre esteve sob seu controle. Stephenie, aliás, é muito eficiente em dizer a todos os que buscam nos heróis inspiração para superar seus medos que nada do que façamos será suficiente, afinal, nossa amada verá o “herói” e se apaixonará instantaneamente por ele, sem nenhum motivo.

Enfim, por que continuar a ler algo assim? Algo que diz que a situação não pode melhorar, não importa o que se faça? Algo que apenas me faz recordar as reais situações? Particularmente, prefiro procurar algo mais inspirador.