sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Quebrando o protocolo

Whatever. Não me lembro de quando foi a primeira vez que ouvi essa expressão, mas a amei e passei a utilizá-la com freqüência. Na maioria das vezes, pouca diferença fazia – ou faz – entre o que eu disse e o que se seguiu. Posso me lembrar de quando comecei a fazer uso constante dessa palavra, de minha expressão, de estado há pouco mais de três anos.
Sentia o mundo se fechando, estava com medo. Apesar de o tempo ser invariável para todos, de forma egoísta, pensava ser minha a dor maior. Inevitável; veio o luto, palavra que tolamente utilizei há pouco menos de dois anos – graças a Deus, nunca senti seu verdadeiro significado.
Fechei-me, busquei “a sombra de meus dias ensolarados”. Afirmei que a mudança era fantástica para os outros porque lhes dava a chance de fazer grandes amigos, coisa que eu já tinha. Não vou hipocritamente dizer que não tinha, mas é importante citar isso para destacar meu egoísmo. Eu estava mau, mas como me foi dito certa vez, eu “queria estar mau para provar que era verdadeiro o que sentia”. Fantástico, Letícia, hoje vejo que você provavelmente acertou.
Egoísta, forçadamente depressivo, anti-social. Odeio; essa foi a palavra que usei depois. Montei conceitos prévios, acusei, julguei e condenei um local por sua aparência – e estendi o veredicto às pessoas que o freqüentavam. Nunca discuti tanto minha forma de ser quanto naquelas semanas; tudo era ruim, porque eu queria.
Fui o pior que poderia ser, mas, ainda assim, as pessoas não desistiram de mim. Não era, “de fato e em verdade – ou em verdade de fato”, merecedor de seu tempo, de sua atenção. Mas ainda assim os recebi – tempo e atenção – e sou, hoje, muito grato por isso.
Ouvi, durante aquelas semanas, que os anos seguintes poderiam ser “os mais fantásticos da minha vida, se eu permitisse”. Estava resoluto em não permitir, sofrer era uma obrigação em minha complicada mente. Mas como não permitir algo com o qual você convive todos os dias?
Não haveria como explicar o processo seguinte – palavras, tão completas, às vezes são falhas. O insuportável tornou-se tolerável, o tolerável aprazível e o aprazível amável. Não era uma questão de permitir, mas sim de não desistir. Fantásticos? É talvez aquele veterano, na semana de recepção, estivesse certo.
Romper com as antigas estruturas era necessário; sofrer não era mais obrigação, mas sim Opção. O grande problema em se passar tanto tempo sendo alguém que você imagina ter que ser é não saber quem você de fato é. Era preciso descobrir...
Pulando algumas semanas (que muito tiveram a ver com a frase “é só apertar abaixo da última costela”), fiquei confuso. Fui influenciado, pressionado, fiz besteiras... tudo que hoje vejo como absolutamente necessário. Dos cacos da “Obrigação de ser”, emergiu um novo eu.
Discuti, errei, odiei, amei, me apaixonei; tudo no “pior lugar do mundo”. Por que citar isso agora, fatos há muito ocorridos e ainda cedo para serem lembrados? Simples, porque da mesma forma que homenagens póstumas são apenas palavras, pedir desculpas após o final do ano não teria a significância devida.
Conheci pessoas fantásticas – entre elas eu mesmo -, vivi situações fantásticas, aprendi muito (no sentido não acadêmico, mas de vida), fiz grandes amigos e vivi os quase três anos mais fantásticos da minha vida. Meus sinceros pedidos de desculpas àqueles que um dia possa ter magoado ou ofendido; meus sinceros agradecimentos a uma pessoinha, baixinha, saltitante, uma “criança feliz” por chamar esse “velho rabugento” de egoísta quando ele precisava ler isso; meus sinceros agradecimentos ao grupo de sempre, pelo apoio, competência e discussões; meus sinceros agradecimentos as pessoas que me irritaram, por me ensinar a levar as coisas menos a sério; enfim, meus sinceros agradecimentos a todos que fizeram parte da minha vida na Ete(c) Lauro Gomes.
Whatever. Dessa vez, essa expressão não me salvará; dessa vez, como poucas vezes faço (senhor “XD”, grande observador, que o diga), terei de quebrar meu protocolo e admitir: EU ESTAVA ERRADO! Errado sobre a ETE, errado sobre as pessoas de lá, errado sobre a dinâmica dos sentimentos, errado sobre meu conhecimento sobre eu mesmo. Inevitável: essa é a palavra para usar agora. É inevitável a passagem do tempo – agora temos apenas mais quatro semanas; será inevitável não sentir falta de vocês; foi, é e será inevitável não amá-los.