terça-feira, 18 de junho de 2013

Vinte centavos

        Certa vez, há alguns anos, num intervalo do curso de Mecatrônica uma amiga relatou que, ao mostrar a peça que havia usinado em uma aula, foi questionada, pelo pai, sobre a função de tal peça. Ela não sabia a resposta – creio que ninguém na turma saberia responder se aquela peça tinha alguma função prática ou era apenas didática. Hoje, gostaria de repetir este ato – só que ao invés de perguntar a uma aluna para que serve a peça que ela acabou de esculpir, perguntar a um dos milhares de manifestantes que tomaram as ruas das maiores cidades do país por que, afinal, estavam ali.
Tal pergunta emerge do interessante fato de que muitos portaram cartazes, compartilharam, gritaram “Não é só por R$ 0,20” quando a organização do movimento que originou o que passou a ser chamado de “revolução” disse, clara e repetidas vezes, que a manifestação buscava somente a revogação do aumento das passagens nos supracitados vinte centavos. Que os manifestantes estivessem de saco cheio dos acontecimentos do cenário político, do custo de vida, do sinal do 3G, dos serviços de saúde e educação públicos eu entendo; o que não entendo é o porquê da vontade de participar de um movimento que já disse não buscar aquilo que eles buscavam. Se no dia seguinte a prefeitura e o governo do Estado fizessem um acordo e reduzissem o preço das passagens, logicamente, o movimento deveria cessar e a vontade daqueles milhares de manifestantes teria sido atendida, de acordo com a organização do movimento
Se disseram “Não é só por R$ 0,20” é, então, pelo quê? E, mais importante, como atingir esse “quê” que tanto buscam. Do meu ponto de vista, é bastante improdutivo parar importantes ruas da maior cidade do país pra gritar contra digamos, o custo de vida. Mais intrigante ainda é fazer isso sabendo que se algum abobalhado cometesse algum ato de vandalismo poderia desencadear uma reação policial que provou, em protestos anteriores, ser desproporcional. Não que a presença da polícia fosse desnecessária – os três primeiros atos mostraram que ela era indispensável para coibir a prática de vandalismo que, diferentemente do que li em várias publicações, não se justifica perante nenhum motivo: se quebram o metrô na França é vandalismo, não ativismo; se quebram o metrô em São Paulo é, também, vandalismo, não ativismo. Da mesma forma, não se justificam os crimes cometidos por policiais no quarto protesto.
Outro ponto que gerou grande curiosidade foram as publicações que diziam coisas como “Isso a TV não mostra”. Ora, há algum tempo tenho visto, de muitos que publicaram material contendo estas frases, publicações que orgulhosamente diziam que não mais assistiam TV – uma, aliás, chegava a relacionar o hábito de assistir televisão à formação de um mau profissional. Qualquer pessoa com algum apreço pela coerência deve pensar “se eles afirmam com tanto orgulho que não assistem TV, como podem afirmar tão categoricamente que a TV não exibe tal conteúdo?”. Pois bem, fui tirar a prova durante o quinto protesto e, por algumas horas, assisti a emissora que mais inspira raiva – inclusive minha, como fã de automobilismo – a Globo. E o que vi foi um telejornal local que teve sua edição dedicada quase que totalmente à cobertura do protesto, cobertura durante intervalos comerciais e cobertura durante o bloco inicial do Jornal Nacional citando, inclusive, os manifestantes que faziam críticas à própria Globo. Como citei, como fã de automobilismo sei que essa emissora irrita, mas para encher a boca e gritar algo em um protesto como “o protesto a televisão não mostra” é bom averiguar se, de fato, a acusação é verdadeira. A coerência é uma coisa muito bela.
Interessante também é o manifestante que acha que todos os canais devem transmitir a todo instante seu protesto. Mas isso, devo dizer para ser justo, não é um comportamento exclusivo dos participantes desse protesto: na interminável greve das federais de 2012 o que cansei de ver foram acusações de que a mídia não transmitia nada sobre a greve. Minha opinião, não publicada aqui à época, foi de que se, ao ingressarmos numa universidade federal dizemos com orgulho que fazemos parte de uma minoria da população brasileira, seria uma grande hipocrisia exigir da maioria da população, que não vivencia o ambiente afetado pela greve, que tomasse algum partido. Nesse sentido, de que valeria encher os telejornais com notícias que pouco interessavam o grande público? No caso das manifestações deste ano, como já citei, houve transmissão; só que convém lembrar que o mundo não parou por causa do protesto e que, apesar de outros grupos de insatisfeitos, acontece neste período uma das maiores competições do futebol mundial. Não falar da Copa das Confederações seria ser tão jornalisticamente incompetente quanto não falar dos protestos.
Agora, de volta ao quinto protesto, conclui duas coisas: ou o protesto tenta lutar contra a “mão invisível” da economia ou é, como aparenta ser, um grito entalado depois de tantos escândalos e absurdos vistos no cenário político nacional. Romanticamente assumindo a segunda hipótese (e ignorando a organização do movimento que afirma ser verdadeira a primeira) pode-se dizer que trata-se do exercício de um direito, o direito de reclamar contra o governo. Entretanto, vale lembrar que em nosso Estado democrático, o governo é eleito pelo povo; não seria, então, hipocrisia o povo parar cidades para protestar por um governo escolhido pelo povo? Cheguei a ver publicações que pediam o impeachment da presidente (e me pergunto se aqueles que compartilharam este material realmente pensam que o país mudaria radicalmente com Michel Temer como presidente e se consideram que não podem alterar, até outubro de 2014, a base aliada que decide o futuro do país). O problema, então, é o povo, que vota mal e esquece que vota. Mas não dá pra protestar contra o povo né? Então vamos protestar contra tudo, porque “não é só por R$ 0,20”.
Para não ser um daqueles textos que só criticam, concluo dizendo que o movimento iniciado por uma organização que despreza sua dimensão, afirmando que ele busca “apenas os R$ 0,20”, deveria ser para o povo, não contra o governo. Acredito fielmente que se se perguntasse para o passageiro de um ônibus parado num engarrafamento infindável (único resultado dos protestos até aqui, diga-se de passagem) se os vinte centavos da tarifa valem o tempo que ele perdeu nessas últimas semanas, ele provavelmente diria que não. Se realmente não é só por vinte centavos, o movimento não deveria parar cidades; os atos verdadeiramente poderosos não fazem alarde. Se querem uma verdadeira revolução, ela já tem data marcada: outubro de 2014, quando a polícia não vai reprimir quem for se manifestar, e quem o fizer não impedirá o direito constitucional de ir e vir de ninguém, sequer gritará ou portará cartazes: seus dedos falarão. Se o protesto for contra o povo, que criou a atual situação, ninguém deverá dizer em quem votar – mas o povo saberá, e saberá principalmente, em quem não votar.